22 organizações portuguesas enviaram hoje à Comissão Europeia uma
carta onde denunciam o incumprimento do Regulamento relativo ao Plano
Estratégico da Política Agrícola Comum (PEPAC) e das Recomendações da Comissão
Europeia para a elaboração deste Plano Estratégico em Portugal.
Lisboa, 7 de fevereiro 2022 – Em causa está o Plano Estratégico
da Política Agrícola Comum (PEPAC), apresentado por Portugal à Comissão
Europeia a 30 de dezembro de 2021 que, segundo as organizações que enviaram
esta denúncia, apresenta 2 grandes falhas: não está de acordo com o Regulamento (UE) 2021/2115 que estabelece as regras para
a elaboração dos Planos Estratégicos pelos Estados-Membros no âmbito da
Política Agrícola Comum (PAC), e não cumpre todas as recomendações da Comissão Europeia para a preparação do PEPAC em
Portugal. O PEPAC encontra-se agora em apreciação pela Comissão Europeia,
aguardando-se em breve a publicação da observation
letter da Comissão sobre o PEPAC português.
O documento enviado hoje à Comissão Europeia apresenta as falhas e imprecisões no Plano
Estratégico apresentado por Portugal. Para estas organizações, o
diagnóstico da agricultura nacional apresentado no PEPAC é muito incompleto e
desatualizado, já que o Recenseamento Agrícola de 2019, divulgado pelo INE em
março de 2021, é ignorado em partes muito importantes do diagnóstico e mesmo na
avaliação ex-ante, onde é mais de uma vez referido que não existem dados
suficientes sobre a estrutura das Explorações Agrícolas posteriores a 2009.
Também não está explicado de que forma os
ecorregimes, uma das novidades da nova PAC para o período 2023-2027, respondem às
necessidades identificadas, nem como contribuem para a realização das metas
estabelecidas. Adicionalmente, o PEPAC português não demonstra a
complementaridade e a não-sobreposição de práticas agrícolas promovidas por
diferentes intervenções ambientais e climáticas (condicionalidade, ecorregimes,
medidas agroambientais) e não explica nem fundamenta devidamente como foram
determinados os montantes dos apoios a atribuir, nem os respetivos métodos de
cálculo ou os seus pressupostos.

A participação efetiva das organizações da
sociedade civil, tal como exigido pelo Regulamento (UE) 2021/2115, também não
foi assegurada. As organizações consideram que não foi estabelecida uma
verdadeira parceria com atores relevantes e as poucas oportunidades de participação
foram insuficientes (consultas públicas com prazos muito curtos em relação ao
volume de informação a analisar), incompletas (nem toda a documentação
apresentada à Comissão Europeia foi sujeita a consulta pública), e
inconsequentes (as contribuições apresentadas nas duas consultas públicas
conduziram a muito poucas alterações nos textos iniciais). Mesmo assumindo que
a Comissão de Acompanhamento da Revisão da PAC, criada pelo Governo português
em 2017, constitui a "parceria" recomendada no Regulamento (UE)
2021/2115, vários dos seus membros demitiram-se no ano passado devido à forma
não transparente e não participativa como os trabalhos desta comissão
decorreram. Em agosto de 2021, assistiu-se ao nascimento da Coligação Cívica
“Participar no PEPAC”, que estas organizações integram, a mais forte evidência
empírica do não envolvimento da sociedade civil neste processo.
Também a avaliação ex-ante, obrigatória de acordo com o Regulamento, está incompleta
uma vez que se centra apenas na análise SWOT (do inglês “Strengths, Weaknesses,
Opportunities and Threats”) e na avaliação das necessidades, não incide sobre
as medidas definidas e não foi sujeita a consulta pública. A Avaliação
Ambiental Estratégica (AAE), também obrigatória, pautou-se pela ausência de consulta
às organizações ambientais e de consulta pública. Aliás, a AAE não terá ainda
sido enviada à Comissão Europeia, sendo desconhecido o seu conteúdo.
O próprio Instituto da Conservação da Natureza
e das Florestas (ICNF) teve de participar nas duas consultas públicas alargadas
por não ter sido devidamente envolvido na preparação do PEPAC, com a agravante
de todas as medidas relacionadas com a biodiversidade não terem sido propostas
por este organismo, com funções de Autoridade Nacional de Conservação da
Natureza. Acrescentam também que, não estando o PEPAC alinhado com o Quadro de
Ação Prioritário (que define as intervenções a realizar na Rede Natura 2000),
torna-se impossível avaliar a extensão da sua contribuição para os objetivos
desta rede de conservação da natureza da União Europeia.
Esta carta de alerta refere também que as recomendações da Comissão Europeia para
a preparação do Plano Estratégico não foram seguidas já que a necessidade
de travar a perda e a degradação de habitats em resultado da atividade agrícola
e da sua intensificação não foi considerada, bem como os impactos negativos
destas práticas sobre espécies com um estado de conservação desfavorável. Por
exemplo, não estão previstas intervenções ou identificação de necessidades
relacionadas com a possibilidade de reduzir
a utilização total de água (e.g. utilizando
culturas mediterrânicas de sequeiro, com menores requisitos de água), exceto
através da eficiência da utilização da água (cujos ganhos são anulados pelo
aumento significativo da área de regadios). Também não há qualquer intervenção
identificada para apoiar a utilização de ferramentas de monitorização de
emissões de Gases com Efeito de Estufa (GEE) nas explorações agrícolas. Perante
as previsões da intensificação de aridez em grande parte do território
nacional, é estranho que este plano não contemple medidas que incentivem uma
agricultura mais ecológica.
As organizações apontam também que o orçamento
para as medidas dedicadas ao conhecimento corresponde a apenas 0,63% do
orçamento do PEPAC, um valor claramente insuficiente para satisfazer as
necessidades identificadas pela Comissão. Recorde-se que Portugal é o país da
UE com o 2.º pior desempenho do seu Sistema de Inovação e Conhecimento
Agrícola.
Neste alerta, apela-se à Comissão Europeia que
solicite ao Governo português o cumprimento das regras estabelecidas no
Regulamento, bem como as recomendações da Comissão, revendo o Plano Estratégico
e assegurando a participação adequada e formal da sociedade civil neste processo
e a coerência deste instrumento com outros compromissos nacionais e
internacionais.
---- FIM ----
Organizações subscritoras deste comunicado e que integram a Coligação
Cívica “Participar no PEPAC”:
A Rocha – Associação Cristã de Estudo e Defesa do Ambiente
Acréscimo -
Associação de Promoção ao Investimento Florestal
ADPM - Associação de Defesa do Património de
Mértola
AEPGA - Associação para o Estudo e Protecção do
Gado Asinino
ALDEIA -
Acção, Liberdade, Desenvolvimento, Educação, Investigação, Ambiente
Almargem -
Associação de Defesa do Património Cultural e Ambiental do Algarve
ANIMAR - Associação Portuguesa para o
Desenvolvimento Local
ANP|WWF –
Associação Natureza Portugal, em associação com a WWF
ATN -
Associação Transumância e Natureza
FAPAS - Associação Portuguesa para a Conservação da
Biodiversidade
FMT –
Fundação Minha Terra
GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do
Território e Ambiente
Íris -
Associação Nacional de Ambiente
LPN – Liga para a Protecção da Natureza
OIKOS - Cooperação e Desenvolvimento
Palombar –
Conservação da Natureza e do Património Rural
Quercus - Associação Nacional de Conservação da
Natureza
SPB – Sociedade Portuguesa de Botânica
SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves
SPECO – Sociedade Portuguesa de Ecologia
SPER - Sociedade Portuguesa de Estudos Rurais
Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável