sexta-feira, 24 de junho de 2022

As florestas em Portugal mantêm declínio económico: a “grande reforma da floresta” foi um rotundo fracasso

(foto de Zito Colaço)


No início de 2016, o governo presidido pelo atual primeiro-ministro proclamava uma “grande reforma para a floresta”. Os atuais número do Instituto Nacional de Estatística (INE), sobre as Contas Económicas da Silvicultura de 2020, evidenciam um rotundo fracasso governamental. Nada que na altura não fosse previsto pela ACRÉSCIMO.

Disponibilizadas na presente semana, as Contas Económicas da Silvicultura referentes a 2020 evidenciam o declínio da produção silvícola nacional, o que induz consequências nas vertentes social e ambiental. Por exemplo, ao nível dos incêndios.

Há que mencionar que, apesar da proclamada importância atribuída ao sector florestal em Portugal, não se compreende que o Instituto Nacional de Estatística demora ano e meio para disponibilizar dados fundamentais para a avaliação das medidas de política sectorial. Um paradoxo!

Como se observa no documento disponibilizado pelo INE, no período 2016 a 2020 acentuou-se a queda do Valor Acrescentado Bruto (VAB) da silvicultura, atingindo em percentagem do VAB nacional mínimos de 2008 (0,4 %). Foi assim anulado o crescimento registado no período 2009/2015.

Causa especial preocupação a crescente dependência dos espaços florestais em Portugal da produção de madeira para trituração (onde se incluí a produção de celulose e de energia), com um registo de quase 70% do total de produção lenhosa nacional. Esta produção está estritamente ligada a plantações exploradas em curtas rotações, associadas à prática de cortes rasos e à produção industrial de bens de ciclo curto de vida (p.e., papel e pellets, briquetes e lenhas), ou seja, que rapidamente restituem à atmosfera o carbono antes sequestrado pelo arvoredo.

A ACRÉSCIMO lamenta a ausência de políticas que fomentem a silvicultura para a produção de madeira serrada, de maior valor acrescentado, associada a mais emprego, com impacto em meios rurais (serrações, carpintaria, mobiliário) e a menores impactos ambientais, seja pelo tipo de práticas silvícolas, seja pela durabilidade dos bens produzidos.

Não se perspetivam mudanças de relevo com a política florestal do atual Governo

 

segunda-feira, 21 de março de 2022

A invasão da Ucrânia e o aumento da pressão sobre as florestas em Portugal

Instituído pelas Nações Unidas desde 1971, assinala-se hoje mais um Dia Mundial da Árvore e da Floresta, este ano num contexto dramático de guerra na Europa.

Da condenação da invasão da Ucrânia, do brutal impacto sobre a sua população, as infraestruturas vitais e sobre os recursos naturais, entre outras consequências para Portugal, há que antever as que possam incidir sobre os nossos espaços florestais.

Em causa está a bizarra queima de arvoredo para a produção de eletricidade, suportada pela União Europeia, através de forte financiamento público, com consequências no aumento das emissões de gases de efeito estufa, com severo acréscimo de poluição e perda de biodiversidade, todas com forte impacto na saúde pública.

Com a suspensão do fornecimento de material lenhoso, sobre a forma de pellets, provenientes da Ucrânia, da Rússia e da Bielorrússia, com destaque para a sua queima no Reino Unido e na Dinamarca, qual o impacto que a mesma terá sobre as florestas em Portugal. Importa ter em conta que Portugal é o quarto maior fornecedor deste recurso ao Reino Unido. A redução do coberto florestal em Portugal, sobretudo pelo corte de arvoredo de espécies autóctones, tem forte repercussão na paisagem e nos recursos naturais, desde logo sobre a fauna, os solos e a sua capacidade de retenção de água.

Nos últimos tempos assiste-se inclusive a forte remoção de arvoredo autóctone mesmo em áreas protegidas, como ocorreu na Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica, em Almada.

A decisão do Governo da disponibilização de 20 milhões de euros destinados à reflorestação em áreas sob gestão do Estado (a serem efetivos) constitui mera gota de água face ao necessário, designadamente para o controlo de espécies invasoras ou a alteração da paisagem, para a sua valorização, gestão ativa e redução dos riscos, designadamente do associado aos incêndios. Para recuperação das áreas florestais privadas ou comunitárias os valores de fundos públicos apontados são irrisórios face às necessidades. É o caso no PDR 2023/2027.

A Acréscimo exorta o Governo a antecipar a realização do Inventário Florestal Nacional, previsto só para 2025 (o último é de 2015), para efetivo controlo deste importante recurso natural, criando as medidas necessárias para a sua realização a cada ano, conforme proposta apresentada em 2006, ao tempo, pela Direção Geral dos Recursos Florestais.

Importa relembrar que, em 2016, 2017 e 2018, Portugal registou as maiores áreas ardidas absolutas na União Europeia. Desde 1992, segundo relatório da OCDE, regista a segunda maior perda relativa de áreas naturais e seminaturais na União, atrás da Estónia.

 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

MAIS DE 20 ORGANIZAÇÕES PORTUGUESAS DENUNCIAM INCUMPRIMENTOS DO PEPAC DE PORTUGAL À COMISSÃO EUROPEIA

  22 organizações portuguesas enviaram hoje à Comissão Europeia uma carta onde denunciam o incumprimento do Regulamento relativo ao Plano Estratégico da Política Agrícola Comum (PEPAC) e das Recomendações da Comissão Europeia para a elaboração deste Plano Estratégico em Portugal.

 

Lisboa, 7 de fevereiro 2022 – Em causa está o Plano Estratégico da Política Agrícola Comum (PEPAC), apresentado por Portugal à Comissão Europeia a 30 de dezembro de 2021 que, segundo as organizações que enviaram esta denúncia, apresenta 2 grandes falhas: não está de acordo com o Regulamento (UE) 2021/2115 que estabelece as regras para a elaboração dos Planos Estratégicos pelos Estados-Membros no âmbito da Política Agrícola Comum (PAC), e não cumpre todas as recomendações da Comissão Europeia para a preparação do PEPAC em Portugal. O PEPAC encontra-se agora em apreciação pela Comissão Europeia, aguardando-se em breve a publicação da observation letter da Comissão sobre o PEPAC português.

 

O documento enviado hoje à Comissão Europeia apresenta as falhas e imprecisões no Plano Estratégico apresentado por Portugal. Para estas organizações, o diagnóstico da agricultura nacional apresentado no PEPAC é muito incompleto e desatualizado, já que o Recenseamento Agrícola de 2019, divulgado pelo INE em março de 2021, é ignorado em partes muito importantes do diagnóstico e mesmo na avaliação ex-ante, onde é mais de uma vez referido que não existem dados suficientes sobre a estrutura das Explorações Agrícolas posteriores a 2009.

Também não está explicado de que forma os ecorregimes, uma das novidades da nova PAC para o período 2023-2027, respondem às necessidades identificadas, nem como contribuem para a realização das metas estabelecidas. Adicionalmente, o PEPAC português não demonstra a complementaridade e a não-sobreposição de práticas agrícolas promovidas por diferentes intervenções ambientais e climáticas (condicionalidade, ecorregimes, medidas agroambientais) e não explica nem fundamenta devidamente como foram determinados os montantes dos apoios a atribuir, nem os respetivos métodos de cálculo ou os seus pressupostos.


 

A participação efetiva das organizações da sociedade civil, tal como exigido pelo Regulamento (UE) 2021/2115, também não foi assegurada. As organizações consideram que não foi estabelecida uma verdadeira parceria com atores relevantes e as poucas oportunidades de participação foram insuficientes (consultas públicas com prazos muito curtos em relação ao volume de informação a analisar), incompletas (nem toda a documentação apresentada à Comissão Europeia foi sujeita a consulta pública), e inconsequentes (as contribuições apresentadas nas duas consultas públicas conduziram a muito poucas alterações nos textos iniciais). Mesmo assumindo que a Comissão de Acompanhamento da Revisão da PAC, criada pelo Governo português em 2017, constitui a "parceria" recomendada no Regulamento (UE) 2021/2115, vários dos seus membros demitiram-se no ano passado devido à forma não transparente e não participativa como os trabalhos desta comissão decorreram. Em agosto de 2021, assistiu-se ao nascimento da Coligação Cívica “Participar no PEPAC”, que estas organizações integram, a mais forte evidência empírica do não envolvimento da sociedade civil neste processo.

Também a avaliação ex-ante, obrigatória de acordo com o Regulamento, está incompleta uma vez que se centra apenas na análise SWOT (do inglês “Strengths, Weaknesses, Opportunities and Threats”) e na avaliação das necessidades, não incide sobre as medidas definidas e não foi sujeita a consulta pública. A Avaliação Ambiental Estratégica (AAE), também obrigatória, pautou-se pela ausência de consulta às organizações ambientais e de consulta pública. Aliás, a AAE não terá ainda sido enviada à Comissão Europeia, sendo desconhecido o seu conteúdo.

O próprio Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) teve de participar nas duas consultas públicas alargadas por não ter sido devidamente envolvido na preparação do PEPAC, com a agravante de todas as medidas relacionadas com a biodiversidade não terem sido propostas por este organismo, com funções de Autoridade Nacional de Conservação da Natureza. Acrescentam também que, não estando o PEPAC alinhado com o Quadro de Ação Prioritário (que define as intervenções a realizar na Rede Natura 2000), torna-se impossível avaliar a extensão da sua contribuição para os objetivos desta rede de conservação da natureza da União Europeia.

Esta carta de alerta refere também que as recomendações da Comissão Europeia para a preparação do Plano Estratégico não foram seguidas já que a necessidade de travar a perda e a degradação de habitats em resultado da atividade agrícola e da sua intensificação não foi considerada, bem como os impactos negativos destas práticas sobre espécies com um estado de conservação desfavorável. Por exemplo, não estão previstas intervenções ou identificação de necessidades relacionadas com a possibilidade de reduzir 

a utilização total de água (e.g. utilizando culturas mediterrânicas de sequeiro, com menores requisitos de água), exceto através da eficiência da utilização da água (cujos ganhos são anulados pelo aumento significativo da área de regadios). Também não há qualquer intervenção identificada para apoiar a utilização de ferramentas de monitorização de emissões de Gases com Efeito de Estufa (GEE) nas explorações agrícolas. Perante as previsões da intensificação de aridez em grande parte do território nacional, é estranho que este plano não contemple medidas que incentivem uma agricultura mais ecológica.

As organizações apontam também que o orçamento para as medidas dedicadas ao conhecimento corresponde a apenas 0,63% do orçamento do PEPAC, um valor claramente insuficiente para satisfazer as necessidades identificadas pela Comissão. Recorde-se que Portugal é o país da UE com o 2.º pior desempenho do seu Sistema de Inovação e Conhecimento Agrícola.

Neste alerta, apela-se à Comissão Europeia que solicite ao Governo português o cumprimento das regras estabelecidas no Regulamento, bem como as recomendações da Comissão, revendo o Plano Estratégico e assegurando a participação adequada e formal da sociedade civil neste processo e a coerência deste instrumento com outros compromissos nacionais e internacionais.


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Organizações subscritoras deste comunicado e que integram a Coligação Cívica “Participar no PEPAC”:

A Rocha – Associação Cristã de Estudo e Defesa do Ambiente

Acréscimo - Associação de Promoção ao Investimento Florestal

ADPM - Associação de Defesa do Património de Mértola

AEPGA - Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino

ALDEIA - Acção, Liberdade, Desenvolvimento, Educação, Investigação, Ambiente

Almargem - Associação de Defesa do Património Cultural e Ambiental do Algarve

ANIMAR - Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local

ANP|WWF – Associação Natureza Portugal, em associação com a WWF

ATN - Associação Transumância e Natureza

FAPAS - Associação Portuguesa para a Conservação da Biodiversidade

FMT – Fundação Minha Terra

GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente

Íris - Associação Nacional de Ambiente

LPN – Liga para a Protecção da Natureza

OIKOS - Cooperação e Desenvolvimento

Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural

Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza

SPB – Sociedade Portuguesa de Botânica

SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves

SPECO – Sociedade Portuguesa de Ecologia

SPER - Sociedade Portuguesa de Estudos Rurais

Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável

 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Sobre a proposta de Plano de Gestão Florestal para a Mata Nacional de Leiria

 

Na apreciação geral da proposta de Plano de Gestão Florestal (2019-2038) para a Mata Nacional de Leiria, na versão a consulta pública até 1 de fevereiro de 2022, a Acréscimo constatou um conjunto de deficiências graves.

Assim, considerando que:

1. Embora siga o modelo geral (simplificado) de elaboração deste tipo de planos, definido no Art.º 15.º do Decreto-Lei n.º 16/2009, homologado pelo Despacho n.º 15183/2009 (Séria II), de 6 de junho, dificilmente se pode considerar como um plano de engenharia, por falta, entre outras, de uma componente financeira. A falta desta componente fragiliza a futura execução do plano, porquanto, não permite antever os fluxos financeiros necessários à sua execução, em particular, das necessidades previsionais em capital de investimento decorrente de receitas próprias da Mata, nem de capitais alheios, decorrentes de financiamento público, nacional ou comunitário. Na falta desta componente, o plano é pouco mais do que um conjunto de supostas boas intenções, sendo previsível um fim semelhante ao do PGF antecessor, de 2010.

2. O plano em consulta pública, embora estejamos em 2022, apresenta proposta de intervenções para anos anteriores. Algo insólito. A questão que se coloca é saber se o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, I.P., tem vindo a aprovar planos de gesto florestal, submetidos por entidades terceiras, com previsões de intervenções para anos anteriores à data da sua aprovação. Acresce que parecer haver uma incompatibilidade entre o agora previsto e o realizado em 2019, 2020 e 2021.

3. Existe um conjunto demasiado vasto de incorreções, entre desfasamentos de números entre quadros e texto até a referências bibliográficas mal inseridas.

4. Um aspeto que consideramos de significativo relevo, decorre do longo histórico de melhoramento genéticos realizado ao longo de décadas nesta Mata Nacional, que agora se desperdiça. Não é visível preocupação sobre a proveniência dos materiais de reprodução vegetativa a servir de base a ações de arborização, em concreto, no que respeita à espécie pinheiro-bravo.

5. A aposta em regeneração natural, também em pinheiro-bravo e nos talhões em que tal seja possível, afigura-se desejável, desde que sejam quantificadas, conforme inscrito no ponto 1, as necessidades financeiras estimadas para as subsequentes operações de condução cultural nesses mesmos talhões. O histórico desta aposta no decurso do incêndio de 2003 é deplorável. Com efeito, tal como registado no pós-incêndio de outubro de 2017, nos talhões onde se concretizou a aposta em regeneração natural após incêndio de 2003, ficou evidente a carência de intervenção cultural, concretamente de operação de limpeza intraespecífica.

 

        
(fotografia recolhida na Mata Nacional de Leiria, em visita técnica realizada a 22 de outubro de 2017)


6. É fundamental assegurar o bem-estar das populações que residem em povoações contíguas à Mata, nomeadamente em termos de lazer. Todavia, urge recuperar, adaptado ao momento presente, o bem-estar decorrente da oferta de emprego, pela valorização dos produtos oriundos da Mata, através de uma clara aposta na obtenção de máximo valor que tais produtos possam fazer reter na região e, em particular, no concelho da Marinha Grande. Tal passa pela reinstalação de viveiros ou pela recuperação de unidades de primeira transformação de material lenhoso. Não é visível no plano preocupação neste sentido.

Afigura-se ser urgente uma reavaliação interna do plano proposto, antes de nova consulta pública. Se já se perderam 4 anos, não será certamente por mais uns meses que não se poderá elaborar e apreciar um documento robusto técnica, científica e financeiramente, o que parece não ser o caso presente. Para o efeito, importará ter em conta as recomendações da comissão científica criada em 2018 para apoio à recuperação das Matas Nacionais do litoral, o que presentemente se afigura terem sido ignoradas na sua generalidade. Entre estas as relativas à intervenção de uma entidade independente no processo de consulta pública e a elaboração do plano de gestão florestal em parceria com entidades locais e outras.

 


quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Governo avança com diploma para aumentar as áreas limite de eucalipto por concelho

Apesar dos alertas a contestar o projeto de diploma para alteração dos limites máximos de plantações de eucalipto por concelho, enunciados em carta aberta subscrita por oito organizações nacionais, o Governo fez publicar ontem em Diário da República a Portaria n.º 18/2022.

Este diploma prevê aumentos dos limites das áreas de plantações de eucalipto por concelho em 125 municípios e um incremento potencial global da área ocupada pela espécie de mais 36.701 hectares. No aumento potencial, apesar do argumento governamental de servirem para acolher projetos de compensação, previsto na Lei, podem vir a ser incluídas plantações ilegais e, entretanto, não detectadas.


Em 27 concelhos esse aumento potencial ultrapassa os 500 hectares, sendo que em Castelo Branco supera os 1.800 hectares e em Odemira o acréscimo é superior a 3.100 hectares. Estes são dois concelhos onde se perspetiva a escassez futura de água, existindo já crescente contestação à rega de eucaliptos no município do sudoeste alentejano. Já em Marvão, em que todo o município está integrado em Parque Natural, a Portaria estabelece a possibilidade de um aumento de 8 hectares. Curiosamente, o Plano de Ordenamento do Parque Natural da Serra de São Mamede interdita a introdução de novos povoamentos de eucaliptos explorados em revoluções curtas.


Acresce que na Portaria, ao contrário do que constava em projeto, não consta a auscultação à Associação Nacional de Municípios Portugueses. Terá sido um lapso?


Há ainda a constatar a particularidade de, tal como ocorrido em fevereiro de 2011, em final de ciclo político, um Governo vir legislar sobre a alteração de limites às plantações de eucalipto. É conhecido o histórico de evolução destas plantações ocorrido desde 2011, designadamente em termos de presença na área ardida.


Face à insistência do Governo, perante o atual momento político, faz-se o desafio às diferentes forças políticas a concorrer às Eleições Legislativas de 30 de janeiro para uma tomada de posição sobre esta matéria e sobre se e como pretendem cumprir a meta nacional para as plantações de eucalipto estabelecida na Estratégia Nacional para as Florestas, de até 812 mil hectares em 2030. De acordo com o 6.º Inventário Florestal Nacional, em 2015 a área de plantações de eucalipto era de 845 mil hectares. Todavia, em relatório das Nações Unidas, para o mesmo ano (2015), essa área era apontada em 891 mil hectares, valor mais próximo do apurado pela Direção Geral do Território, na Cartografia de Ocupação e Uso dos Solos (882 mil hectares, em 2015).


As organizações signatárias,




 


CARTA ABERTA AO MINISTRO DO AMBIENTE E DA AÇÃO CLIMÁTICA CONTRA A DESTRUIÇÃO DAS ÁREAS DE CONSERVAÇÃO DA NATUREZA EM PORTUGAL

Portugal é o segundo Estado Membro da União Europeia que registou a maior perda relativa de áreas naturais e seminaturais entre 1992 e 2020, de acordo com dados da OCDE [1].

Nos últimos meses, o país tem assistido a verdadeiros atentados contra as áreas de conservação da natureza, protagonizados pelo Governo, autarquias e até pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas.


Em causa está o aumento da pressão humana em áreas onde o objetivo principal deveria ser o da manutenção dos ecossistemas que nos permitem preservar a biodiversidade, os solos e os recursos hídricos. De facto, as paisagens naturais são transformadas, por exemplo através da instalação de extensos passadiços ou de baloiços, sem a devida avaliação dos impactos ambientais associados.  Nos tempos que correm, urge reaproximar a sociedade humana da natureza, mas as estruturas que apoiam a visitação a áreas de conservação da natureza não podem pôr em causa o seu objetivo principal - a proteção da biodiversidade e da integridade ecológica dos seus habitats. Na gestão das áreas naturais, a vertente economicista tem, em certos casos, tendido a assumir prioridade face à vertente ecológica, o que agrava o cenário de perda de áreas naturais, já muito desfavorável para Portugal no contexto europeu e internacional.


Adicionalmente, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, com recurso a financiamentos públicos, comunitários e nacionais, tem efetuado brutais operações de corte e trituração de arvoredo, com os argumentos de prevenção de fogos e de controlo de espécies exóticas invasoras. Estas operações utilizam maquinaria pesada em solos sensíveis, incluindo habitats como dunas e zonas húmidas, potenciam as emissões de dióxido de carbono, comprometem os solos e os recursos hídricos, destroem fauna e flora autóctone e acentuam o risco de incêndio. Quanto ao arvoredo autóctone abatido, face à elevada procura de madeira nos mercados, não está claro se a operação resulta na obtenção de receitas para o Estado ou para entidades privadas, situação que urge ser investigada.


O que se tem passado na Mata Nacional do Medos, Reserva Botânica que integra a Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica [2], às portas de Lisboa, é elucidativo da destruição levada a cabo pelo ICNF. Esta situação está longe de ser isolada, casos semelhantes ocorreram e ocorrem noutras áreas de conservação, como a Reserva Natural das Dunas de São Jacinto [3], a Serra da Lousã [4] [5] ou o Paul do Taipal [6], em Montemor-o-Velho.


Enquanto que as diretrizes da União Europeia apontam para a necessidade de descarbonização e de conservação da natureza, a prática do Governo Português tem caminhado no sentido inverso, com altas emissões de gases poluentes, e projetos de construção que promovem o declínio da biodiversidade autóctone e o aumento de espécies invasoras, para além de acentuarem a degradação dos solos e a capacidade de armazenamento de água.


Contra a destruição do património natural nacional, protagonizado pelo Governo, as organizações signatárias apoiam a ação pública do próximo dia 8 de janeiro, promovida pelo grupo de cidadãos do Movimento em defesa da Mata dos Medos.




Foto de Zito Colaço



As organizações signatárias,


  • ACRÉSCIMO - Associação de Promoção ao Investimento Florestal

  • FAPAS - Associação Portuguesa para a Conservação da Biodiversidade

  • GEOTA - Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente

  • IRIS - Associação nacional de Ambiente

  • MILVOZ - Associação de Protecção e Conservação da Natureza

  • QUERCUS - Associação Nacional de Conservação da Natureza


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Referências


[1] OECD (2020), "Land resources: Land cover change in countries and regions", OECD Environment Statistics (database) using data from the European Space Agency CCI-Land Cover project.


[2] Expresso: “Impacto brutal”: associaç~ºoesm ambientalistas denunciam intervenção do Instituto de Conservação da Natureza na Mata dos Medos, em Almada” - 07/12/2021

https://expresso.pt/sociedade/2021-12-07-Impacto-brutal-associacoes-ambientalistas-denunciam-intervencao-do-Instituto-de-Conservacao-da-Natureza-na-Mata-dos-Medos-em-Almada-892ded25


[3] FAPAS - Associação Portuguesa para a Conservação da Biodiversidade: “Nota sobre a Reserva Natural das Dunas de S. Jacinto, para memória futura” - 08/11/2021

https://drive.google.com/file/d/12UZTtJ0UnEZcDsllANNjo_TfHnqBuSM-/view?usp=sharing


[4] Público: “Cortes rasos de árvores na Serra da Lousã motiva queixa às autoridades” - 10/11/2021

https://www.publico.pt/2021/11/10/local/noticia/cortes-rasos-arvores-serra-lousa-motivam-queixas-autoridades-1984481


[5] Público: “Associações da Lousã travam cortes de árvores com acção popular” - 17/11/2021

https://www.publico.pt/2021/11/17/local/noticia/associacoes-lousa-travam-cortes-arvores-accao-popular-1985387


[6] Público: “No Mondego, está em construção um passadiço que passa por um refúgio de aves” – 03/12/2021

https://www.publico.pt/2021/12/09/local/noticia/baixo-mondego-construcao-passadico-passa-refugio-aves-1987818


quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Intervenção do ICNF destrói área protegida na Mata dos Medos, no concelho de Almada

 

A Mata Nacional dos Medos integra a Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica (PPAFCC) e está sob gestão do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, I.P., tutelado pelo Ministério do Ambiente e da Ação Climática.

A Mata Nacional dispõe de Plano de Gestão Florestal (PGF) em vigor. Junto ao parque de merendas da Aroeira, na parte norte da Avenida do Mar, o PGF prevê a realização de desbastes e desramações. Todavia, o que se constata é a realização de uma operação de exploração florestal, com uso de maquinaria florestal pesada. O corte abusivo de arvoredo não configura a realização de desbastes, mais ainda em área classificada como de conservação.

Ao contrário do previsto em PGF, a placa de obra visível no local indica a intenção do ICNF em proceder a “projeto de conservação de habitats naturais e de valorização da PP Arriba Fóssil da Costa da Caparica, com o objetivo de “criação de percursos acessíveis que diminuam o pisoteio em áreas sensíveis”. Tratando-se de facto de áreas sensíveis, em solos arenosos de dunas antigas, não há como justificar a presença e circulação de tratores florestais pesados, designadamente de máquina processadora de abate e toragem de árvores, de máquina autocarregadora-transportadora e de estilhaçador.


A intervenção em curso consta do abate e trituração de pinheiros mansos adultos, cujo destino industrial é desconhecido. Da operação em curso resulta uma muito significativa perda de coberto arbóreo, associada a um crescente risco de propagação de incêndios e de instalação de espécies exóticas invasoras, designadamente de acácias. A operação coloca ainda em causa a presença de um vasto conjunto de espécies florísticas e faunísticas que aí tinham até agora o seu habitat.

Ao contrário de valorizar a Mata Nacional, a intervenção do ICNF deprecia-a significativamente. No plano financeiro, pelo prejuízo na produção de pinhas e pinhões, na vertente ambiental por colocar em risco a estabilização dos solos, a perda de coberto arbóreo e de biodiversidade.

Não foi encontrado procedimento concursal relativo a esta operação, nem outro documento oficial envolvendo a empresa que executa as operações de abate, toragem, extração e trituração dos pinheiros mansos.

Dadas as denúncias chegadas às signatárias, foram realizadas diligências no sentido de obter esclarecimentos sobre a intervenção em causa, das quais não foram ainda obtidas respostas.

As signatárias condenam veementemente esta ação do ICNF e exigem a imediata suspensão dos trabalhos até cabal explicação da intervenção em curso.


ACRÉSCIMO - Associação de Promoção ao Investimento Florestal

IRIS - Associação Nacional de Ambiente

QUERCUS - Associação Nacional de Conservação da Natureza