quarta-feira, 12 de abril de 2017

A fiabilidade da área ardida registada em Portugal

No dia de apresentação do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais (DECIF) para 2017, a ocorrer na Lousã, importa questionar da fiabilidade dos números tornados públicos sobre a área ardida em Portugal.

Os factos:

De acordo com o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2016, hoje citado pelo jornal Observador, registaram-se 13.333 incêndios florestais, menos 18,2% do que em 2015, que consumiram 154.944 hectares, mais do dobro do que em 2015.

De acordo com o 9.º Relatório Provisório de Incêndios Florestais, referente ao período de 1 de janeiro a 15 de outubro de 2016, o último até à data disponibilizado no site do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que faz referência à base de dados nacional de incêndios florestais, foram registados 160.490 hectares de área ardida, entre povoamentos (85.785 hectares) e matos (74.705 hectares).

Entre 15 de outubro e 31 de dezembro foi registada ainda área ardida, a qual consta nos dados disponibilizados pelo EFFIS (European Forest Fire Information System).

Dos dados de área ardida constantes no RASI para o ano de 2016 aos disponibilizados pelo ICNF, só até 15 de outubro, registam-se mais de 5,5 mil hectares, ou seja, mais de metade da área do concelho de Lisboa.


Na apresentação hoje do DECIF para 2017, seria interessante ter números mais seguros sobre a área ardida e o número de incêndios registados em Portugal em 2016.

Já, no passado, se registaram várias fontes com diferentes registos sobre incêndios florestais em Portugal. O facto é gerador de falta de credibilidade, mais ainda num país que, na Europa, regista um impacto significativo no que respeita a este fenómeno.


quarta-feira, 22 de março de 2017

Os contribuintes europeus vão continuar a financiar incêndios florestais em Portugal

No âmbito de mais um Dia Mundial das Florestas, o ministro da Agricultura anunciou que o Governo irá dispor de 550 a 600 milhões de euros para apoio às florestas até 2020. Mencionou ainda que as taxas de cofinanciamento público atingirão até 90 a 100% dos investimentos que venham a ser apoiados. Para o efeito, o Governo recorrerá a verbas da Política Agrícola Comum (PAC) e do Orçamento de Estado.


Os factos:

Entre o PEDAP e o PRODER, ou seja, de 1989 a 2013, os fundos da PAC e do Orçamento financiaram a (re)arborização de mais de 440 mil hectares e a beneficiação de mais de 730 mil hectares.


ÁREAS (RE)ARBORIZADAS E BENEFICIADAS COM APOIOS DA PAC E OE

Período
Instrumento
QCA/PDR
(Re)arborização
(103 hectares)
Beneficiação
(103 hectares)
1989-1993
PEDAP
113.562
211.004
1994-1999
PAMAF e Reg. 2080
226.637
166.458
2000-2006
AGRO e RURIS
92.067
202.773
2007-2013*
PRODER
9.059
152.774


441.325
733.009

(*) dados até dezembro de 2011
Fonte: ICNF e IFAP

Entre 1995 e 2010, as espécies que foram objeto de maior apoio financeiro da União Europeia e do Estado Português virão a sua área global contrair cerca de 300 mil hectares.


EVOLUÇÃO DA ÁREA DE FLORESTA POR ESPÉCIE

Ano
PINHEIRO BRAVO
Pinus pinaster
(103 hectares)
SOBREIRO
Quercus suber
(103 hectares)
AZINHEIRA
Quercus rotundifolia
(103 hectares)
1995
                            977.883
746.828
366.687
2010
714.445
736.775
331.179
Diferença
- 263.438
- 10.053
                             - 35.508

Fonte: ICNF (IFN6)

Na sua maioria estas áreas foram vítima de uma gestão de abandono e dos consequentes incêndios florestais, mas também de pragas e de doenças. Ou seja, apesar do “generoso” apoio público, o mesmo mostrou-se incapaz de contrariar os constrangimentos dos mercados e de concretizar o objetivo de conservação de espécies protegidas por legislação nacional, como é o caso da azinheira (Quercus rotundifolia).

No que respeita aos incêndios florestais, Portugal tem ocupado um lugar de relevo no seio do sul da Europa. No grupo dos cinco Estados Membros, Portugal detém apenas 6% da área territorial do conjunto, todavia apresenta anos com áreas ardidas que superam o total dos demais.


ÁREAS ARDIDAS NO SUL DA EUROPA
(valores em hectares)

Espanha
França
Grécia
Itália
Portugal
1990
203 032
72 625
38 594
195 319
137 252
1991
260 318
10 130
13 046
99 860
182 486
1992
105 277
16 593
71 410
105 692
57 011
1993
89 267
16 698
54 049
203 749
49 963
1994
437 635
24 995
57 908
136 334
77 323
1995
143 484
18 137
27 202
48 884
169 612
1996
59 814
11 400
25 310
57 988
88 867
1997
98 503
21 581
52 373
111 230
30 535
1998
133 643
19 282
92 901
155 553
158 369
1999
82 217
15 906
8 289
71 117
70 613
2000
188 586
24 078
145 033
114 648
159 605
2001
93 297
20 642
18 221
76 427
111 850
2002
107 464
30 160
6 013
40 791
124 411
2003
148 172
73 278
3 517
91 805
425 726
2004
134 193
13 711
10 267
60 176
129 539
2005
188 697
22 135
6 437
47 575
338 262
2006
155 345
7 844
12 661
39 946
75 510
2007
86 122
8 570
225 734
227 729
31 450
2008
50 322
6 001
29 152
66 329
17 244
2009
120 094
17 000
35 342
73 355
87 416
2010
54 770
10 300
8 967
46 537
133 090
2011
102 161
9 400
29 144
72 004
73 813
2012
226 125
8 600
59 924
130 814
110 231
2013
58 985
3 608
46 676
29 076
152 756
2014
46 721
7 493
25 846
36 125
19 929

Fonte: Pordata


A não existir uma alteração radical na atribuição dos “generosos” apoios às florestas, os contribuintes europeus irão, contra sua vontade, correr o risco de continuarem a financiar os incêndios florestais em Portugal. Relembra-se que os designados “projetos florestais” são aprovados oficialmente sem uma análise financeira ou de risco (designadamente o decorrente dos mercados funcionarem em concorrência imperfeita).

O Tribunal de Contas Europeu (TCE), de acordo com missiva enviada à Acréscimo, nunca auditou o uso de apoios europeus às florestas em Portugal, nem sequer no que respeita à atribuição de fundos da União Europeia à prevenção de incêndios no país.