terça-feira, 11 de setembro de 2012

Hipocrisia política nas florestas


A classe política tem sido pródiga em exemplos de hipocrisia, também no que respeita às florestas e ao setor da silvicultura. Analisemos os exemplos concretos em dois instrumentos de suposto apoio ao investimento florestal:


1.   O PRODER e as florestas

Em 2007, tendo por base o Programa de Desenvolvimento Rural – Continente 2007/2013 (PRODER), eram anunciados politicamente, com pompa e circunstância, a disponibilização de cerca de 733 milhões de Euros para investimento nas florestas em Portugal, sendo que menos de metade viria de financiamento privado (290,9 milhões).

A Sociedade poderia assim ficar descansada, pois com tantos milhões de Euros estariam assegurados o investimento na Competitividade da atividade silvícola e na Sustentabilidade das florestas portuguesas. Agricultores, produtores e empresários florestais veriam assim assegurados meios para a atividade silvícola nas suas propriedades, bem como para a defesa do seu património florestal, para bem de todos nós.

O que se constata no final de 2011 (5.º dos 7 anos de vigência do PRODER)? A taxa de execução (realizado/programado), nas várias medidas florestais, varia entre os 2 e os 16%. Ou seja, para 2012 e 2013 estão teoricamente por realizar, nas várias medidas, entre 74 e 98% dos montantes anunciados, com pompa e circunstância, em 2007. Um verdadeiro bluff.


2.   O Fundo Florestal Permanente

No rescaldo dos dramáticos incêndios florestais de 2003, aliás como já havia sido previsto na Lei de Bases da Política Florestal, esta de 1996, foi publicado em 2004 o decreto-lei que criou o Fundo Florestal Permanente. Este fundo público visava a promoção do ordenamento e da gestão florestal, o financiamento na prevenção de incêndios, em ações de reflorestação, na reestruturação das propriedades e na investigação. O fundo é financiado através de uma ecotaxa aplicada aos consumidores de combustíveis rodoviários, tendo recolhido, entre os anos de 2004 a 2010, cerca de 169 milhões de Euros.

O que se constata em 2012? O Fundo Florestal Permanente afinal é utilizado sobretudo para financiar encargos fixos do próprio Estado.


Em conclusão, o investimento florestal não é claramente uma prioridade política. Talvez com a exceção da aposta do atual Ministério da Agricultura, e também do Ambiente, em fomentar de forma avulsa, extemporânea e irresponsável uma “Campanha do Eucalipto”. No entanto aqui, ao contrário da “Campanha do Trigo” do Estado Novo, não assegura nem serviços de assistência técnica aos agricultores e produtores florestais, nem instrumentos de regulação na formação dos preços, deixando estes agentes económicos à mercê de monopólios industriais. Afinal, nem esta suposta “liberalização” do investimento em espécies exóticas de rápido crescimento parece ser para levar a sério.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Regulação de preços pelo MAMAOT.


A Acréscimo – Associação de Promoção ao Investimento Florestal saúda o anúncio da ministra Assunção Cristas, proferida ontem, 5 de setembro, no Cartaxo, sobre a intervenção do Ministério na regulação de preços no setor agroalimentar, o que espera seja no imediato extensível ao setor florestal.

Tal como anteriormente defendido pela Acréscimo, a regulação de preços no setor florestal é um dos pontos essenciais para revitalizar a atividade silvícola em Portugal e promover a defesa da floresta contra os incêndios.

Efetivamente, como é do conhecimento geral, nas três principais fileiras silvo-industriais, do pinheiro bravo, do eucalipto e do sobreiro, regista-se uma forte concentração empresarial ao nível da indústria, seja nas madeiras e no mobiliário, seja na pasta celulósica e papel ou na cortiça, dominando, em cada uma dessas fileiras, a formação dos preços e o acesso aos mercados.

Segundo os mais recentes dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística, nas Contas Económicas da Silvicultura, no período de 2000 a 2010, a Produção registou uma taxa de variação média anual de -2,0% em volume e de -2,3% em valor, facto que reflete a diminuição dos preços no produtor. Por sua vez, no que respeita à relação entre o Consumo Intermédio da silvicultura e a Produção, o INE registou, para o período em análise, um acréscimo de 7,1% desfavorável ao produtor florestal. A diminuição dos preços ao produtor e o aumento dos consumos intermédios traduzem claramente uma situação adversa à atividades silvícola. Refletindo o comportamento da Produção e do VAB, que no período decresceu 19,2% (2010 face a 2000), o Rendimento Empresarial Líquido registou no período um decréscimo acentuado, superior a ¼ de milhar de milhões de euros.



Índice de preços (2000=100)                                  


Rendimento Empresarial Líquido


Ainda de acordo com dados do Ministério, disponíveis na Estratégia Nacional para as Florestas, no período de 1975 a 2004, o decréscimo de preços à porta da fábrica, para os produtos madeireiros, é bem evidente.



Desde logo, fica óbvio que a rentabilidade dos espaços ocupados por floresta tem decrescido substancialmente ao longo de décadas, muito embora tenham aumentado os custos de produção, em especial a energia e os combustíveis.

Ora, sem rentabilidade nos espaços florestais, não será possível ter uma adequada gestão florestal, tornando impossível o ordenamento destas superfícies, com as consequências conhecidas em cada período estival: os incêndios florestais.

A anunciada intervenção do Ministério na regulação de preços, pode assim proporcionar, no setor florestal, um forte incentivo ao investimento na gestão, e bem assim, à redução do impacto dos incêndios florestais.

Obviamente, serão necessárias medidas adicionais, como a assistência técnica aos produtores, através de um serviço de extensão rural, bem como a quantificação e qualificação de outros bens e serviços de base florestal, hoje sem valor de mercado, entre eles, a paisagem, a conservação dos solos, a regulação dos regimes hídricos (controlo das cheias), ou o sequestro de carbono, que possam proporcionar outros rendimentos aos agricultores e produtores florestais.

Recorda-se que em Portugal existem cerca de 1,5 a 2 milhões de solos abandonados ou semi-abandonados, ou seja sem uma adequada gestão, ou melhor, com uma gestão adequada (ausência) às expectativas de mercado (ausentes). Para além da propagação dos incêndios, existem impactos negativos ao nível da proliferação de pragas e doenças, no despovoamento do mundo rural e no aumento de fenómenos de desertificação. Haja coragem política para inverter esta tendência. Não é nos Ministérios da Administração Interna ou da Segurança Social, mas sim no MAMAOT que está a solução para reduzir os impactos sociais, ambientais e económicos dos incêndios florestais.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Porque ardem as florestas em Portugal?


- Ardem porque a floresta produtiva portuguesa hoje, no meio rural, não gera expectativas de negócio (salvo em situações específicas), não gera riqueza, não proporciona emprego, nem bem-estar às populações, facto que contribui, com outros, para o incontrolável êxodo rural que grassa no País (catastroficamente registado pelo INE, censo após censo).

Fonte: INE – Censos 2011P

As florestas em Portugal encontram-se, desde há anos, numa situação de sustentabilidade duvidosa, sujeita simultaneamente a situações de subaproveitamento e de sobre-exploração, não se garantindo hoje sequer a conservação dos recursos naturais que lhe estão associados.

Segundo dados da autoridade florestal nacional (atualmente com a designação de Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas), apesar da ausência de cadastro rústico em parte significativa do Território, a área florestal nacional é em mais de 90% detida por proprietários privados, dos quais 75% possuem propriedades com menos de 20 hectares (área insuficiente para viabilizar economicamente uma exploração florestal). Este grupo específico de proprietários é caracterizado pela ausência ou por investimentos residuais nas suas explorações, nas quais predominam espécies de produção lenhosa (fundamentalmente o pinheiro bravo e o eucalipto), estando as práticas de gestão e o rendimento gerado associados à satisfação de necessidades económicas conjunturais.

Apesar dos tradicionais números imputados ao setor silvo-industrial português, sobejamente identificados nos discursos políticos e empresariais, quer o peso no PIB, nas exportações (agora em moda), quer no emprego (industrial), o facto é que, segundo os dados publicados nas Contas Económicas da Silvicultura, do INE, as florestas em Portugal geram cada vez menos expectativas de negócio (se ainda geram). Importa então analisar os dados menos publicitados da Floresta Portuguesa.

Nos últimos 11 anos (2000-2010), a atividade silvícola e de exploração florestal, que está na base da fileira de atividades económicas relacionada com a indústria transformadora da madeira e da cortiça, registou um declínio progressivo. Segundo o INE, em 2000, o Valor Acrescentado Bruto (VAB) atingiu o valor máximo da década, tendo terminado em 2010 com um valor real inferior em cerca de 19,2%. Quando ao peso do VAB da silvicultura no VAB nacional, verificou-se no período uma perda de importância do setor silvícola na economia nacional, passando de 0,8% em 2000, para 0,4% em 2010 (dados provisórios), ou seja, uma quebra de 50%. A Produção registou no período uma taxa de variação média anual de -2,0% em volume e de -2,3% em valor, facto que reflete a diminuição dos preços no produtor. Por sua vez, no que respeita à relação entre o Consumo Intermédio da silvicultura e a Produção, o INE registou, para o período em análise, um acréscimo de 7,1% desfavorável ao produtor florestal. A diminuição dos preços ao produtor e o aumento dos consumos intermédios traduzem claramente uma situação adversa à atividades silvícola. Refletindo o comportamento da Produção e do VAB, o Rendimento Empresarial Líquido registou no período um decréscimo acentuado (superior a ¼ de milhar de milhões de euros):

Fonte: INE – CES 2010.

Simultaneamente, com base nos dados do Inventário Florestal Nacional, especialistas nacionais identificaram indícios do aumento de situações de deficiência ou, mesmo, ausência de gestão florestal nas áreas das duas principais espécies florestais produtoras de madeira, o pinheiro bravo e o eucalipto. No caso do eucalipto, a espécies que nos últimos 30 anos registou maior acréscimo de áreas, os dados recolhidos podem mesmo significar um aumento acentuado de eucaliptais abandonados entre 1992 e 2005 (últimos dados oficiais). Importa registar que, em Portugal se encontram em estado de abandono ou semi-abandono cerca de 1,5 a 2 milhões de hectares, o correspondente a cerca de 20% do Território Nacional (não haveria do País de estar na situação económica em que se encontra).

Com impacto determinante nas florestas produtivas nacionais, regista-se que nas três principais fileiras silvo-industriais são evidentes relações comerciais impostas pelo setor industrial. A produção florestal portuguesa, por incapacidade de exportar diretamente os seus produtos, vê-se na dependência da indústria transformadora, a qual determina os preços à porta da fábrica. Importa ter presente que, em cada uma das três fileiras: a do pinheiro bravo, a do eucalipto e a do sobreiro; existe uma empresa industrial que tem posição dominante no mercado respetivo, seja o Grupo Sonae do setor do pinho, seja o Grupo Portucel Soporcel no setor do eucalipto, seja o Grupo Amorim no setor corticeiro. Curiosamente, por tradição, o Ministério que tutela a atividade florestal em Portugal, abstém-se de intervir no acompanhamento das relações comerciais no setor, acentuando a dependência da produção florestal nacional face à indústria que lhe está a jusante. Não estarão os imponentes números do setor silvo-industrial português associados ao declínio da produção florestal nacional? Importa ter presente que a indústria entrará posteriormente em declínio (já iniciou), ou deslocalizar-se-à para o exterior. Em todo o caso, o País dificilmente se livrará do despovoamento e da desertificação que grassam no interior.

Fonte: DGRF – Evolução dos preços da madeira de eucalipto e pinho para trituração à porta da fábrica.

Ao nível dos apoios públicos às florestas, exige-se uma mudança de paradigma, com uma aposta obrigatória na gestão florestal; na organização dos espaços florestais: seja através de Zonas de Intervenção Florestal (conceito a atualizar), de Sociedades de Gestão Florestal, de Fundos de Investimento Imobiliário Florestal ou de bolsas de terras; na investigação e na melhoria das qualificações das empresas e dos profissionais do setor. O País não pode continuar a desperdiçar fundos públicos, originados do esforço dos contribuintes, para derreter em sistemáticas florestações, muitas delas destinadas a arder. Importa ter presente que, no período 1989-2005, foram gastos, só em novas arborizações de pinheiro bravo, cerca de 700 milhões de euros, tendo a área desta espécie, ao invés de aumentar, regredido quase 400 mil hectares, um desperdício criminoso.

Ao nível da investigação florestal, tendo em vista quer o aumento das produtividades, mas também a diversificação dos produtos (que não apenas a madeira e a cortiça) e a prestação de serviços ambientais, existe um longo caminho por percorrer. A este nível o investimento tem sido insignificante. O Estado tem de definir uma estratégia clara para a investigação aplicada, sobretudo nas áreas relacionadas com a quantificação e a qualificação de bens e de serviços intangíveis, ou seja atualmente sem valor de mercado, criando os meios para que a Sociedade possa remunerar o recreio e lazer, a conservação do solo, o sequestro de carbono, entre outros proporcionados pelos espaços florestais.

Recorrendo a meios públicos, privados e mistos, o País tem de fornecer à produção florestal portuguesa meios de assessoria técnica. Em ligação com a investigação aplicada, tem de ser criado um serviço de extensão florestal (ou rural), que proporcione a transmissão da informação até ao agricultor e produtor florestal, ou a outros gestores de espaços agroflorestais. Este é um instrumento fundamental para gerar expectativas de negócio nestes espaços, quer para uma maior e melhor produção de madeira, ou de cortiça, para a produção de aproveitamento racional da biomassa, quer para uma utilização em regime de multifuncionalidade dos espaços agroflorestais, com a diversificação de produtos e serviços, gerando assim emprego em meio rural (ao contrário do que hoje acontece com as grandes unidades da indústria transformadora), proporcionando melhores condições de bem-estar às populações, combatendo o êxodo rural e a desertificação.

Em conclusão, para uma verdadeira defesa da floresta contra os incêndios (mas também das pragas e das doenças), urge definir uma aposta politica nos fatores de sucesso das florestas portuguesas. São eles:

  • A extensão florestal (ou rural) - ligar a investigação, a formação e a assessoria técnica à produção florestal; 
  • O acompanhamento das relações comerciais nas fileiras silvo-industriais – ajustar o peso dos diferentes agentes, regulando as posições de monopólio industrial;
  • A quantificação e a qualificação de outros bens e serviços – diversificando as opções de negócio para os espaços florestais.

O objetivo fundamental é garantir a gestão florestal ativa, desejavelmente sustentável, dos espaços florestais em Portugal.

A condição de base - as florestas têm de gerar expectativas de negócio aos seus detentores e gestores.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Portugal: florestas com sustentabilidade duvidosa.


Já em finais de 1996, um estudo independente, desenvolvido sob coordenação da Jaakko Pöyry, diagnosticava graves insuficiências do setor primário florestal em Portugal, vítima simultaneamente do insuficiente aproveitamento do seu potencial e de uma crescente pressão no abastecimento ao setor industrial, agravada ultimamente pelo aumento da procura de madeira e de biomassa para fins energéticos.

O crescente agravamento desta situação de subaproveitamento e de sobre-exploração dos espaços florestais, condiciona uma utilização racional e sustentável dos recursos florestais portugueses, o que pode aportar fortes impactos negativos às futuras gerações. Portugal exporta grande parte dos bens produzidos a partir de recursos florestais, essencialmente para Estados-Membros da União Europeia, com destaque para Espanha, França e Alemanha.

O desajuste entre a oferta e a procura foi, em 2011, objeto de denúncia pública pelo mais alto responsável da Autoridade Florestal Nacional, ao pressupor uma situação de rutura de material lenhoso em menos de 15 anos. Para fazer face à insuficiência de recursos, o País importa atualmente cerca de 2 milhões de metros cúbicos de material lenhoso, alguns deles a merecer a preocupação da WWF quanto à sua proveniência.

Perante o constante agravamento da situação face a 1996, o atual governo evidenciou recentemente uma aposta avulsa na florestação, em particular em monoculturas com espécies exóticas de rápido crescimento, no caso concreto com o eucalipto (Eucalyptus globulus). Contudo, especialistas nacionais, investigadores e universitários, revelam que, segundo dados dos últimos inventários florestais, se tem verificado o aumento de situações de deficiência ou, mesmo, ausência de gestão florestal nas duas principais espécies florestais portuguesas, o pinheiro bravo (Pinus pinaster) e o eucalipto. No caso do eucalipto, os dados recolhidos podem mesmo significar um aumento acentuado de eucaliptais abandonados entre 1992 e 2005.

Segundo os especialistas, o aumento da possibilidade de material lenhoso proveniente de pinheiro bravo e de eucalipto para o abastecimento das indústrias transformadoras passará, não tanto pelo aumento das suas áreas de ocupação, como se verificou no início do século passado e parece ser a opção do atual Governo, mas, fundamentalmente, pela promoção da gestão ativa dos espaços florestais, com o intuito de obter maiores produtividades por área. Essa prioridade é fundamentada no facto de se manterem inalterados, desde 1928, os valores relativos às produtividades, de 5 e 10 metros cúbicos anuais por hectare, respetivamente para o pinheiro bravo e para o eucalipto.

A ausência de uma gestão ativa, em parte significativa da área florestal portuguesa, está na origem de uma mais fácil propagação dos incêndios florestais em Portugal, bem como numa mais favorável propagação de pragas e de doenças. A este facto não está alheia a crescente concentração industrial e a falta de concorrência nas três principais fileiras florestais, tanto na do eucalipto, como na do pinheiro bravo, mas também na do sobreiro (Quercus suber). Cada uma destas fileiras é dominada por um grupo empresarial específico. Atualmente, as autoridades abstêm-se de um acompanhamento das relações comerciais nas várias fileiras silvo-industriais, deixando agricultores e proprietários florestais (detentores de cerca de 90% da área florestal em Portugal) à mercê de grandes monopólios industriais.

O País tem sido objeto, desde 1989, do apoio de fundos comunitários para as florestas. Contudo, aqui têm-se evidenciado resultados práticos desconcertantes e taxas de realização que ficam sempre aquém das expectativas, ou são mesmo irrisórias, como as evidenciadas no atual período (2007/2013). Aqui, estratégias errantes, designadamente com apostas prioritárias em novas florestações, sem assegurar a subsequente gestão florestal ou o ajustamento aos mercados, têm proporcionado situações de grande preocupação. No caso mais grave do pinheiro bravo, foram já consumidos (1989/2005), só para novas florestações, centenas de milhões de euros. Contudo, embora fosse expectável que o esforço dos contribuintes nacionais e europeus gerasse, através da atribuição de subsídios não reembolsáveis, milhares de novos hectares de pinheiro bravo, na realidade constatou-se, neste período de tempo, um recuo na área desta espécie em cerca de 400 mil hectares. Paralelamente, no período de 1989 a 2005, tem crescido o impacto negativo dos incêndios florestais em Portugal. Estará o dinheiro dos contribuintes a promover a “indústria” dos incêndios florestais?

Não é por falta de documentos estratégicos que os problemas persistem. Atualmente, anuncia-se mais um. Portugal tem sido pródigo na produção de planos estratégicos para as florestas, entre eles o Plano de Desenvolvimento Sustentável da Floresta Portuguesa (PDSFP), de 1997, ou mais recentemente a Estratégia Nacional para as Florestas (ENF), de 2007. Todos tiveram consequências práticas irrelevantes para a resolução dos problemas de deficiência de gestão, do subaproveitamento e da sobre-exploração, bem como nas consequências destes, como os incêndios, as pragas e as doenças.

Portugal tem, apesar da fraca relevância política das florestas no País, um forte potencial florestal, com produtividades potenciais ímpares na Europa. Dispõe de 1,5 a 2 milhões de hectares de solos incultos, com favorável aptidão florestal. Os espaços silvestres portugueses dispõem ainda de uma elevada biodiversidade, favorável a sistemas florestais multifuncionais, menos dependentes de períodos negativos dos ciclos comerciais. Existe contudo a necessidade, e vontade política, para uma mudança de paradigma. O País necessita de uma aposta clara na gestão ativa e necessariamente sustentável dos seus recursos naturais, no caso específico, convenientemente dirigida e centrada nas centenas de milhares de detentores dos espaços de aptidão florestal existentes em Portugal, os quais têm de ver salvaguardas as suas expectativas económicas, para poderem desenvolver a sua atividade silvícola, proporcionando mais valias sociais, com especial enfoque em meio rural, e ambientais, na conservação dos solos, dos recursos hídricos, da fauna, da flora e no sequestro de carbono. Esta é a estratégia de investimento defendida pela Acréscimo.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A estratégia do “carro à frente dos bois”


O Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (MAMAOT), pretende lançar uma campanha de facilitismo à florestação do País com espécies de rápido crescimento. Como justificação aponta a necessidade do aumento das exportações.

A proposta da alteração da regulamentação das ações de arborização e rearborização, com espécies de rápido crescimento, é avulsa, extemporânea e irresponsável.

É avulsa por ser isolada no âmbito do ciclo de produção florestal (florestação –> gestão/condução cultural –> corte do arvoredo/comercialização). O Ministério evidencia grande preocupação na florestação e descora a ligação com a subsequente gestão dessas novas áreas florestadas. Não assegura igualmente o apoio técnico essencial, nem dá garantia de acesso equilibrado aos mercados por parte da produção florestal. Ora, o que serve para exportação decorre da árvore após o corte, depois de bem gerida, não da planta acabada de colocar no solo. Se o objectivo é imediato, no que respeita às exportações, não será prioritária a aposta nas florestas já existentes, melhorando a sua gestão, para uma maior produtividade?

A proposta é extemporânea, pois estando em avaliação a ENF, a mesma aparece descontextualizada, desenquadrada de um todo estratégico setorial. Segundo o anunciado, a discussão pública para a Estratégia está prevista já para setembro. Questiona-se a demora deste processo, o qual deveria ter sido prioritário no Ministério, contudo mais se questiona a “urgência”, visível com a atual proposta para a florestação com espécies de rápido crescimento. E as outras fileiras florestais? E o espaço para as fileiras emergentes, por exemplo, como a da biomassa, essencial para a redução da dependência energética do País?

Por fim, considera-se a proposta irresponsável. As novas florestações, ou reflorestações, sem garantia firme de gestão florestal subsequente, podem perpetuar as consequências negativas de que hoje são vítimas as florestas em Portugal:
·        Propagação de incêndios florestais; e,
·        Proliferação de pragas e de doenças.

Há que cortar este ciclo vicioso. Do ponto de vista da Acréscimo, a atual proposta do MAMAOT não aparece no sentido desse corte, mas sim no de perpetuar o status quo.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Exportações: “Meia bola e força”, depois logo se vê.


Em matéria de política florestal, o Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (MAMAOT) evidencia ter uma intervenção politicamente ambígua.

Por um lado, a Ministra justifica que, a criação do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), resultante da fusão da Autoridade Florestal Nacional (AFN) com o Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB), tem inerente a introdução da “visão da conservação da natureza na floresta – o que significa juntar a perspetiva da conservação e da biodiversidade com a perspetiva da produção florestal...".

Por outro, com a recente proposta de alteração da regulamentação das ações de florestação com espécies de rápido crescimento, em concreto com eucalipto, com o objetivo simplista de reforçar o valor bruto das exportações, o Ministério parece querer repescar uma iniciativa do Estado Novo (campanha do trigo), ao mesmo tempo que, ao não assegurar serviços de extensão rural, adota uma atitude facilitista, tão característica do último decénio de governação do País.

Neste último caso, não considera o valor líquido das exportações, ou seja, não entra em linha de conta com o passivo resultante da depreciação ou destruição de recursos naturais, da conservação da Natureza e da biodiversidade, remetendo para as gerações futuras os impactos negativos da sua iniciativa. Esta é, aliás, uma atitude que evidencia contrariar os princípios de desenvolvimento sustentável que Portugal assumiu internacionalmente respeitar.


segunda-feira, 2 de julho de 2012

As Relações na Cadeia Silvo-Industrial


Muitos são os que têm defendido a aplicação de sanções, designadamente de natureza fiscal, sobre os proprietários florestais ditos absentistas, escusando-se a interrogar sobre o que pode motivar esse absentismo.

  • Não será essa atitude absentista, ou a prática de uma não gestão, uma consequência das fracas ou nulas expectativas financeiras desses proprietários sobre os bens ou os serviços de que podem usufruir nas suas propriedades?
  • Afinal de contas, faz sentido investir nas florestas com os atuais riscos de investimento e com a flutuação de preços, estabelecidos pela indústria?
  • Faz sentido investir nas florestas na ausência quase total de serviços de extensão florestal, de aconselhamento sobre a condução técnica e financeira desse investimento?
  • Não será estratégica a aposta, por parte do Estado, na criação de novos mercados, designadamente para os serviços ambientais, e na garantia de transparência dos mercados de bens existentes?
Face à concentração empresarial existente no setor florestal em Portugal, nas três principais fileiras silvo-industriais, importa garantir a transparência dos mercados, tendo em vista uma adequada e justa formação dos preços, evitando potenciais fenómenos de cartelização ou uma desajustada supremacia de uma das partes face à produção florestal. Este é um fator determinante para criar e assegurar expectativas de renda aos proprietários florestais e assim fomentar uma gestão ativa nas suas explorações.

Importa assim que seja considerada pelo Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (MAMAO), a par do que já ocorre no setor agroalimentar, a criação de uma plataforma de acompanhamento das relações da cadeia silvo-industrial.

Uma política de preços equilibrada, associada a programas de investigação e de extensão, integrados em lógicas de fileira, assegurarão o crescimento do investimento florestal em Portugal, seja em novas arborizações, mas sobretudo na consolidação das atuais florestas, concretamente através da sua gestão, que se quer profissional e sustentável, minimizando os impactos catastróficos dos incêndios florestais e das pragas e doenças.

Se forem criadas expectativas de segurança e de rentabilidade fiável, quer na produção de bens, mas também na prestação de serviços ambientais em áreas florestais, seguramente os proprietários florestais serão os primeiros a adotar uma gestão sustentável nas suas explorações.